O futuro Artífice efetuou suas abluções matinais, ainda ruminando seus planos. Abriu a pesada porta de madeira nobre e, imerso em seus pensamentos, começou a caminhar no corredor de pedras, seus passos ecoando no chão frio e sua vista olhando sem ver as paredes gravadas com belas imagens de artífices de outrora. Quando seus olhos pousaram na estátua de Cléiades O Presunçoso, sua mente o havia levado ao dia da batalha final. A peleja em que seu pai havia sido morto. Aquele momento fatídico em que o Rei Aalam teve seu coração trespassado pela espada de seu conselheiro, o nobre Vasag.
Por anos e anos, essa cobra havia feito seu ninho na Corte e invejado o destino de seu melhor amigo. Tal inveja impulsionou uma rebelião, da qual Mitros saiu com vida apenas porque sua ama seca, uma mulher cheia de mistérios, havia sentido alguma alteração no cosmos e tratou de organizar a fuga de seu pequeno protegido, com a ajuda da rainha, a qual, infelizmente, faleceu no processo. Mitros jamais iria esquecer-se do corpo de sua mãe sendo atingido por uma impiedosa lança, enquanto ela escorregava de seu cavalo e, gritava, com seu último sopro de vida: "Vá, Agathe! Corra! Salve meu filho! Cuide de meu bebê!".
Agathe conseguiu cumprir o último desejo da Rainha Ijaya; ela levou o pequeno príncipe para a segurança de um reino distante. Mitros até hoje não se recorda direito como ambos conseguiram sobreviver tão árdua e perigosa viagem. Em seu íntimo, ele crê fortemente que os misteriosos poderes de Agathe tiveram um papel fundamental na preservação de suas vidas. Mas, como tinha apenas cinco anos, o monarca destronado não tem claras memórias da jornada. O que Mitros sabe é que ele e sua cuidadora foram parar no reino de Akikos, onde a rebelião do traidor Vazag não passava de notícias de ontem, e onde a ama assumiu o papel de mãe e cuidou de Mitros como se ele fosse seu.
Jamais, todavia, a fiel serva esqueceu-se do que ocorreu naquele dia desgraçado. Ela implantou o desejo de vingança no coração do pequeno Mitos, o qual cresceu com o único objetivo de retomar o trono de seu pai. E hoje, graças a sua ama e a seus próprios esforços, um passo decisivo seria dado rumo a tão proeminente destino. Com certeza ele encontraria a velha bruxa sentada do lado de fora da Sala de Provações, entre os espectadores e familiares à espera do resultado final. Ela estaria empunhando seu enigmático meio-sorriso, de antemão orgulhosa do desempenho de seu pequeno rei. Mitros desejava mostrar a ela, a essa domadora de forças ocultas, que ele também tinha seus truques. E que tais truques permitiriam o retorno de ambos para casa. Permitiriam que o trono de Vasyklo voltasse a ser ocupado por um representante da milenar dinastia dos Astarot. Permitiriam a sua ving... Pof!
O jovem jamais terminou seus pensamentos revolucionários, pois, em meio à neblina da distração em que caminhava, não tinha se apercebido de uma figura que andava em sua direção e, portanto, nela esbarrou. Ao levantar os olhos, Mitros se surpreendeu olhando para ninguém menos que Aellai, a qual segurava um livro aberto, que provavelmente vinha lendo enquanto atravessava o grande corredor.