30.1.14

O Artífice, Capítulo 2

O futuro Artífice efetuou suas abluções matinais, ainda ruminando seus planos. Abriu a pesada porta de madeira nobre e, imerso em seus pensamentos, começou a caminhar no corredor de pedras, seus passos ecoando no chão frio e sua vista olhando sem ver as paredes gravadas com belas imagens de artífices de outrora. Quando seus olhos pousaram na estátua de Cléiades O Presunçoso, sua mente o havia levado ao dia da batalha final. A peleja em que seu pai havia sido morto. Aquele momento fatídico em que o Rei Aalam teve seu coração trespassado pela espada de seu conselheiro, o nobre Vasag.

Por anos e anos, essa cobra havia feito seu ninho na Corte e invejado o destino de seu melhor amigo. Tal inveja impulsionou uma rebelião, da qual Mitros saiu com vida apenas porque sua ama seca, uma mulher cheia de mistérios, havia sentido alguma alteração no cosmos e tratou de organizar a fuga de seu pequeno protegido, com a ajuda da rainha, a qual, infelizmente, faleceu no processo. Mitros jamais iria esquecer-se do corpo de sua mãe sendo atingido por uma impiedosa lança, enquanto ela escorregava de seu cavalo e, gritava, com seu último sopro de vida: "Vá, Agathe! Corra! Salve meu filho! Cuide de meu bebê!".

Agathe conseguiu cumprir o último desejo da Rainha Ijaya; ela levou o pequeno príncipe para a segurança de um reino distante. Mitros até hoje não se recorda direito como ambos conseguiram sobreviver tão árdua e perigosa viagem. Em seu íntimo, ele crê fortemente que os misteriosos poderes de Agathe tiveram um papel fundamental na preservação de suas vidas. Mas, como tinha apenas cinco anos, o monarca destronado não tem claras memórias da jornada. O que Mitros sabe é que ele e sua cuidadora foram parar no reino de Akikos, onde a rebelião do traidor Vazag não passava de notícias de ontem, e onde a ama assumiu o papel de mãe e cuidou de Mitros como se ele fosse seu.

Jamais, todavia, a fiel serva esqueceu-se do que ocorreu naquele dia desgraçado. Ela implantou o desejo de vingança no coração do pequeno Mitos, o qual cresceu com o único objetivo de retomar o trono de seu pai. E hoje, graças a sua ama e a seus próprios esforços, um passo decisivo seria dado rumo a tão proeminente destino. Com certeza ele encontraria a velha bruxa sentada do lado de fora da Sala de Provações, entre os espectadores e familiares à espera do resultado final. Ela estaria empunhando seu enigmático meio-sorriso, de antemão orgulhosa do desempenho de seu pequeno rei. Mitros desejava mostrar a ela, a essa domadora de forças ocultas, que ele também tinha seus truques. E que tais truques permitiriam o retorno de ambos para casa. Permitiriam que o trono de Vasyklo voltasse a ser ocupado por um representante da milenar dinastia dos Astarot. Permitiriam a sua ving... Pof!

O jovem jamais terminou seus pensamentos revolucionários, pois, em meio à neblina da distração em que caminhava, não tinha se apercebido de uma figura que andava em sua direção e, portanto, nela esbarrou. Ao levantar os olhos, Mitros se surpreendeu olhando para ninguém menos que Aellai, a qual segurava um livro aberto, que provavelmente vinha lendo enquanto atravessava o grande corredor.

23.1.14

O Artífice, Capítulo 1

Mitros acordou sem fôlego de um sonho intranquilo.

Abriu as cortinas do dossel e foi até a sacada de seu quarto. No limite da visão se espalhavam jardins belíssimos, em múltiplos tons de bordô e marfim, como se todas as folhas se despedissem dos últimos dias de inverno. Ilhotas se conectavam por correntes colossais, unidas à cidadela repleta de palácios e torres ao redor. A visão de seu lar era suficiente para acalmá-lo do que quer que tivesse encontrado em seu sono. Atalanta era majestosa, e carregava seus bosques suspensos pelos ares há centenas de anos.

O jovem sub-artífice teria sua última prova naquele dia. Sentia o nervosismo se revirar como uma cobra. Mas era sempre assim. Um frio glacial povoava sua barriga até quase que imediatamente antes das avaliações. Depois ele permitia que se infiltrasse em sua mente, e aí então tudo ficava sob controle, até que a sua provação tivesse chegado ao fim e ele saísse trêmulo de alívio.

Aquele dia seria o último. Se fosse aprovado, poderia vestir o vermelho com todo o orgulho que lhe cabia. Seria um Artífice Real, autorizado pela Triarquia a realizar todo tipo de Artifício.

Artifícios eram complicados e poderosos. Ao compreender suas regras, um bom artífice poderia transformar chumbo em ouro, reparar intestinos de enfermos, derreter areia ou engolir as sombras.

Mitros sabia que ainda havia muito a saber mesmo que recebesse a Medalha de Pigmalião, a valiosa insígnia de um Artíficie Real. O percurso de qualquer artífice era árduo e tortuoso...Mas ele queria mais. Queria melhor.

Iria aprender tudo que precisava, e então seria livre para recuperar o trono de seu pai.

21.1.14

Pontos Agudos

Bem-vindas e vindos aos Contos Pontiagudos. 

O projeto surgiu com a ideia de escrever uma história só com duas cabeças criativas interferindo mutuamente e narrando o mesmo conto, um de cada vez.

Cada arco será composto de capítulos, cada capítulo escrito por um de nós. Quando alguém julgar que a história deverá chegar ao seu final, porá um ponto e o outro autor dará início a um novo arco. 

Este é um jogo de criatividade. Ganha quem estiver aqui.

The game is on!

Hális F.